Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Uma carruagem para algo melhor

img5.jpg

 

Custou.

Mais do que podia ter previsto.

Mais do que julguei aguentar.

Mais do que deveria ter sido justo.

Se algo era tão doloroso, poderia verdadeiramente, incondicionalmente e cegamente estar certo?

Não queria parar ali.

Não era a minha paragem. Era impossível ter de sair tão cedo. Ainda agora entrara na carruagem e já tinha de a abandonar. Nem conseguira desfrutar da viagem. Havia tanto caminho à minha frente e tinha de ficar a meio. Tínhamos de ficar a meio. Naquele ponto indefinido onde não existe nada. Onde a estação é um lugar frio, sem ninguém, onde os nossos passos ecoam pelos azulejos húmidos para nos impedir de esquecer a nossa solidão.

O meu corpo não queria compreender o que o meu pensamento dizia, até porque chegados àquela paragem, as palavras estavam perdidas. Não havia tempo, quando houvera tanto. Não havia oportunidades, quando desperdiçáramos todas as que tivemos. Não havia lugares para "olás" e só para "adeus".

E não conseguia. Sabia tudo isso. No decurso da viagem que nos piores momentos parecera não ter fim percebera que aquela era a única solução. Mesmo que me deixasse sem fôlego, trémula e inconsciente do resto. Porque eu gostar da viagem, mesmo nas alturas mais atribuladas, e até talvez por essas.

Se algo nos parece tão errado, é possível que seja a atitude correta?

Quando sentimos que o nosso corpo paralisa, quando o coração se aperta, quando as forças nos abandonam, quando as lágrimas nos turvam a paisagem é, apesar disso tudo, o percurso que devemos escolher?

Aquela pargem parecia-me desoladora. Uns quantos assageiros que se apressavam a entrar e outros que vagueavam por ali por terem há muito perdido a carruagem que lhes era destinada. E era disso que eu mais tinha medo. O que me aterrorizava quando te dizia estas palavras. E se ao escolher sair naquela estação nunca mais chegasse a minha carruagem? E se aquela fosse a certa, a única para mim? Porque, ao olhar para ti, ao hesitar entre a porta e sentar-me de novo a teu lado, a escolher o desconhecido e a escolher-te a ti, com o bom e mau que isso implicava, o meu coração falava mais alto do que a razão. E dizia-me, gritava-me e pulava para que eu me sentasse de novo a teu lado. Que qualquer carruagem seria a minha desde que tu estivesses lá.

Saí.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

 

28 comentários

Comentar post

Pág. 1/2