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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Um banco na praia

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Os sábados de manhã eram especiais.

Nenhum de nós ia trabalhar e, ao contrário das manhãs de domingo que convidavam à preguiça ou aos inevitáveis preparativos de almoços de família a que não podíamos escapar, eram as horas em que andávamos sem destino.

Fosse verão ou inverno, pegávamos nos chapéus de sol ou nos gorros e luvas e caminhávamos até nos esquecermos de onde partíramos. Olhávamos para trás e o percurso não nos dizia nada. 

Adorávamos perder-nos juntos, porque assim sabíamos sempre onde estávamos.

Com a tua mão na minha, ora falávamos sobre todas aquelas coisas importantes e insignificantes, ora nos apaziguávamos no silêncio em que não era preciso dizer nada.

Durante a semana escolhias sempre um sítio diferente e no sábado lá nos preparávamos, saindo ao amanhecer.

Víamos o nascer do sol nos dias límpidos de verão e ficávamos enregelados na escuridão com uma garrafa térmica de café nas mãos que pouco conseguia contra o frio de janeiro.

Os meus passeios preferidos eram na praia.

A paisagem repetia-se em tons de ouro e safiras. Nos dias de nevoeiro as nossas roupas pesavam com a humidade e nada víamos para além de uma massa quase sólida de cinza.

No final do pontão havia um banco de pedra e era aí que nos sentávamos quando o próximo passo nos faria mergulhar nas águas agitadas contra as rochas.

Encostávamo-nos e enchíamos os pulmões com a maresia, o sal e aquele ar que nos abria o apetite e saciava em simultâneo.

Mesmo nos dias mais quentes o banco estava húmido, ainda revelando a morrinha noturna que escurecia a palete dos desenhos dos pés dos que passeavam pelo areal.

Aquele pedaço de pedra branca tornou-se o nosso refúgio. 

Coincidência, ou não, estava sempre desocupado, como se os outros soubessem que nos pertencia. Que ali era o nosso lugar. Como se o banco estivesse desejoso de nos receber e descobrir o que fizéramos desde a última vez que ali nos sentáramos.

Quando ali estávamos nada nos tocava. No nosso pedacinho à beira-mar, o mundo resumia-se a uma elevação de pedra, e nunca sentíamos falta de nada.

Um dia passei por lá. Tu estavas longe e eu, com as saudades a apertarem depois de um telefonema que era sempre demasiado curto, fui até à praia e percorri todo o pontão até ao banquinho.

Queres saber o mais estranho?

Achei-o desconfortável. Estava gelado, fiquei com as calças molhadas e a sua posição elevada fazia com que sentisse a brisa marítima com uma intensidade desagradável. O sol encadeava-me e do mar só via uma mancha de luz.

Desisti após algum tempo. Não me senti serenada. A paz que alcançava nas nossas caminhadas, no meio da minha irritação, era impossível de imaginar.

A desilusão perseguiu-me até casa e não regressei ao banco até tu voltares e fazermos a nossa caminhada. Eu nem queria lá voltar, mas tu convenceste-me. O dia frio não convidava a que se saísse da cama mas tu não aceitaste um não.

No final, sentaste-me a teu lado e apoiei o queixo no teu ombro. O ar gelado não me tirava a respiração, protegiada no teu abraço, e as pernas depressa aqueceram ao sol baixo de inverno. Apertaste-me as mãos e esfregaste-as nas tuas enluvadas. Sorriste-me, recortada contra a luz e arrancaste-me um suspiro daqueles que vêm mesmo do fundo da alma.

Quase podia ouvir o banco troçar de mim.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

 

 

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