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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Sobras para o pequeno-almoço

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Quando acordei no dia seguinte ele ainda dormia.


Em bicos dos pés tomei um banho, limpei todas aquelas malfadadas pinturas e escovei o cabelo molhado com dificuldade.


Com os restos da noite anterior eliminados, senti-me melhor e, apesar de me apetecer voltar para o calor da cama onde ele ainda ressonava, fiz a minha melhor tentativa de um pequeno-almoço comestível com os restos duvidosos que havia no frigorífico.


Estava a acabar de pôr os pratos na mesa quando ele chegou à cozinha. Comemos depressa, lamento dizer, mas tinha de ir trabalhar e não havia grande espaço para o romantismo. A não ser que contem o facto de ele ter sempre um braço esticado para eu lhe segurar uma mão enquanto comia com a outra.

Ele pôs a loiça na máquina enquanto eu me vestia e verificava a pasta. Hoje não jantaríamos juntos. Eu saía mais tarde do trabalho e ele tinha reuniões a que não poderia faltar.


Lamentei que não vivêssemos juntos e continuássemos nesta roda viva de encontros apressados que sabiam sempre a pouco. Ele não me pressionava, mas eu ainda não me sentia preparada para o “grande passo”. Lá haveria de chegar, ainda que não para já. Por agora lamentaria as noites em que não nos víamos ao mesmo tempo que gozava dessa liberdade.


Calcei os sapatos e já ia a correr para a porta quando ele me abraçou por trás e apoiou o queixo no ombro. Não disse nada. Sempre à espera que fosse eu a dizer o que ele já dissera e que ambos sabíamos que ele desejava ouvir da minha parte.


Fiquei feliz por ele não me ver a expressão. Abri a boca mas nada saiu. Era como o frigorífico dele. Por muito que se alimentasse a esperasse que um dia se abrisse e contivesse a refeição de que necessitávamos, só encontrava lá restos sem sabor.

Suspirei, um suspiro que ele replicou. De desalento, de irritação, de desilusão. Não sei. Mas como cobarde que sou, nem olhei para trás quando fechei a porta.

Corri até fazer a curva lá em baixo e quando cheguei à praça já me convencera que tudo estava como devia estar.

 

De Inês Bonfim Madeira

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