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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

À noite, no fim do nevoeiro

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Ainda não eram sete da noite e a escuridão já era cerrada.

Caminhava guiada pela iluminação fraca que tentava combater o nevoeiro que começava a cair em lençois cada vez mais pesados.

Estava atrasada, mas não acelerei o passo, na certeza de que quem me esperava não partiria sem mim. Sabia que podia confiar que pediria outra bebida, que começaria a reler o menu até me fazer as melhores sugestões quando eu chegasse.

Puxei o capuz para cima para proteger o penteado que me levara tanto tempo e muita frustração a completar.

Podia imaginar o que a humidade estaria a fazer ao meu trabalho. Sentia a pele peganhenta e praguejei quando o salto dos sapatos falhou uma das tábuas de madeira.

Amaldiçoei-me por não ter vindo de transportes. Mas a verdade é que estava tão nervosa que achara que um passeio ao ar frio me acalmaria. Que idiotice. Claro que o carro também não fora uma opção. Não queria que no final da noite se tornasse um aspeto logístico que me obrigaria a regressar sozinha.

Por fim, sem sentir as pernas cobertas por uns collants cuja função não ia muito para além da decoração, abri a porta do restaurante e avistei-o.

Estava de costas e não me viu quando me esgueirei para a casa de banho tentando, em vão, compor uma maquilhagem esbatida e um cabelo que parecia escorrer da cabeça.

Desisti e, despindo o casaco, regressei à sala.

Ele virou-se quando estava a poucos passos da mesa. Como se, alertado pela minha chegada, fosse capaz de sentir a minha presença.

Sorriu-me, levantou-se e fez aquela coisa desconcertante de me beijar sem deixar de sorrir e sussurrar que já estava com medo que eu não viesse.

Não reparou no meu penteado arruinado, no meu esforço com paletas, apenas me pegou nas mãos para as aquecer e disse que estava gelada. Gelada, mas linda.

Não acreditava, tivera a prova no espelho da casa de banho, mas quando alguém nos olha daquela maneira, tudo o que sai da sua boca é verdade. Todas as mentiras são factos incontestáveis.

Aqueci rapidamente, fosse pelo calor da sala, fosse pela sua proximidade.

Depois do jantar regressámos a pé, imagine-se!, mas desta vez, encolhida no seu abraço, não senti o nevoeiro que nos fazia estreitar nos braços um do outro.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

 

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