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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Uma dor escondida

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Por vezes doía. Doía e mesmo assim não permitias que ninguém o compreendesse.

Negavas-te a ajuda, o apoio, o conforto.

Punhas um sorriso nos lábios, mais bonito do que qualquer batom, erguias a cabeça, e preparavas-te para uma nova luta.

Ninguém tinha de saber dos teus problemas. Que interesse teria isso? Quanto mais se fala nos problemas, mais eles aparecem. Se simplesmente não os mencionasses, talvez eles desaparecessem.

Não havia marcas. Nada de feridas, hematomas, cicatrizes. Nada de mais, nada visível, nada de concreto.

Irritavas-te com qualquer tentativa de auxílio. Era ridículo até. De que te irias queixar? De palavras? Da maneira como ele perturbava a tua mente? Das noites que passavas a olhar para o teto, incapaz de adormecer, o coração a pulsar nos ouvidos, sem saber o que fazer. Das vezes em que choravas e ficavas mais envergonhada, não tanto pelas lágrimas como pelo facto de te deixares afetar. 

Sabias que ele não merecia, mas acreditavas sempre que pudesse merecer.

Sabias que não era amor, mas acreditavas que te poderia amar.

Sabias que também era dor, mas continuavas a pintar um sorriso, sem ninguém te ver chorar.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

Promessas de dentes de leão

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Nos dias de primavera, aqueles primeiros em que as manhãs aquecem lentamente, com receio de se separarem demasiado depressa do inverno, acordavas-me muito cedo. Lá fora ainda era noite cerrada, mas tu não querias perder tempo.

Já estavas vestido e preparavas a comida enquanto eu me arrastava do conforto da cama. Vestia várias camadas de roupa e fazíamos a primeira parte do caminho em silêncio porque eu estava sempre ou um pouco contrariada ou tão sonolenta que era incapaz de manter uma conversa.

Ao chegarmos lá, contudo, despertava e o ressentimento de ser obrigada a acordar a meio da noite para conduzirmos até nenhures desaparecia.

A maresia cobria os nossos pés e o verde os campos fundia-se com o azul do mar que dançava lá em baixo. O ar era tão puro que me fazia doer o nariz. Sentávamo-nos no capô do carro a comer enquanto o dia clareava e o Sol espreitava por cima das árvores. 

Quando começava a aquecer, tirávamos os casacos e com a neblina a levantar caminhávamos para o pequeno bosque, atravessando-o até à arriba.

Sentávamo-nos ali, naquele ponto que não sendo terra, nem mar, nem ar era tudo em simultâneo.

As azedas libertavam o seu odor enjoativo, via-se uma ou outra borboleta, insetos aproximavam-se e afastavam-se receosos.

Aquele ponto, onde balançávamos os pés para o infinito, onde colhias dentes de leão que sopravas em mil desejos, era um dos meus sítios preferidos.

Quantas promessas fizemos com aquelas flores de algodão?

Quantas vezes eu espirrei e tu te riste depois de dizeres algo sério que me perturbava, agradecendo a distração de uma alergia?

Nunca apanho um dente de leão sem ti.

Só a ti posso fazer promessas.

Só a ti sem que as poderei cumprir.

Só de ti acredito em promessas.

Porque me ensinaste que algo tão frágil, como palavras e fragmentos de pétalas de sonho, encontravam força para sempre se concretizarem. 

 

De Inês Bonfim Madeira