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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Ficarmos juntos em separado

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Por vezes, isto é tudo o que uma relação precisa.
Espaço.
Ar.
Distância.
Sentir a falta do outro.
Perceber que quando nos viramos para lhe contar algo a outra pessoa não está lá.
Dar conta de que sentimos falta daquele toque descontraído.
Lembrar aquelas conversas importantes e as outras insignificantes que se tornaram marcantes.
Quando estamos absorvidos numa relação nem sempre damos o devido valor à outra pessoa porque a tomamos por garantida. Uma separação, um afastamento, faz-nos perceber se aquela é a pessoa que não conseguimos esquecer, que deixa um buraco na nossa vida que é impossível de preencher ou se era um mero acrescento aos nossos dias.
Se lamentarmos a sua falta, é a pessoa certa. A cara metade. A alma gémea. A nossa pessoa.
Só então vale a pena estarmos juntos.
Este é o tempo de estar juntos, para percebermos de quem verdadeiramente sentimos a falta, quem preenche os nossos dias e quem nos rouba espaço e tempo deles. Estes são os momentos para estimar e valorizar aqueles que tornam os nossos dias melhores e para repensar todas aquelas pequenas coisas que nos impedem de respirar e que nos tiram a possibilidade de estarmos com quem amamos e nos ama. Mais do que nunca apercebemo-nos da fragilidade das relações e de todos aqueles assuntos que tinham uma importância enorme e que à luz desta nova condição surgem diminuídos pela vergonha que sentimos quando pensamos como tal podia controlar a nossa atenção.
Vamos parar de desperdiçar tempo, pessoas, sentimentos.
Vamos agarrar o que de valioso a vida nos oferece.
Vamos agarrar a vida e as pessoas, momentos e emoções que nos fazem acreditar que amanhã vai ser um dia melhor.

De Inês Bonfim Madeira

 

 

Uma Páscoa diferente

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Esta é uma das minhas alturas preferidas do ano.

A primavera já começa a alegrar-nos, seja num campo coberto de flores, seja num simples vasinho pendurado na varanda de um prédio. Os dias tornam-se maiores, prolongando-se pelas noites que aquecem, amenas e convidativas a passeios e jantares ao ar livre e a promessa do verão deixa-nos mais leves, libertos do peso do inverno.

As ruas enchem-se, os estabelecimentos de veraneio preparam-se para acolher os turistas, as praias tornam-se o ponto preferido para uma visita de fim de semana. O ar traz aquele cheiro, do pólene, do calor, da esperança. 

As famílias reunem-se pela Páscoa, as mesas cheias, os corações ainda mais. Ovos de chocolate, amêndoas e folares, encerram refeições em que o amor é o principal ingrediente. E, este ano, se muito falta, se as famílias estão separadas, se o mundo permanece parado, se não sentimos a beleza da primavera, se não nos preparamos para receber as novas estações com entusiasmo mas apreensão em relação ao que está para vir, que nunca nos falte esse ingrediente, o amor. 

E que no próximo ano possamos dar passeios em noites primaveris, aproveitar o sol de um final de tarde na praia, um almoço com amigos numa esplanada, uma reunião de família que nos aquece a alma. 

E que no entretanto comecemos a dar valor às pequenas coisas, às que eram banais, às que não tinham importância. Que fortaleçamos relações, mesmo distantes. Que provemos que embora separados estamos unidos. Que demonstremos que podemos sacrificar os nossos desejos pelo bem de todos. Que demostremos que esta terrível prova pode ser ultrapassada se todos fizermos a nossa parte.

Fiquem em casa.

Uma Páscoa feliz e cheia de esperança a todos.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

Uma carruagem para algo melhor

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Custou.

Mais do que podia ter previsto.

Mais do que julguei aguentar.

Mais do que deveria ter sido justo.

Se algo era tão doloroso, poderia verdadeiramente, incondicionalmente e cegamente estar certo?

Não queria parar ali.

Não era a minha paragem. Era impossível ter de sair tão cedo. Ainda agora entrara na carruagem e já tinha de a abandonar. Nem conseguira desfrutar da viagem. Havia tanto caminho à minha frente e tinha de ficar a meio. Tínhamos de ficar a meio. Naquele ponto indefinido onde não existe nada. Onde a estação é um lugar frio, sem ninguém, onde os nossos passos ecoam pelos azulejos húmidos para nos impedir de esquecer a nossa solidão.

O meu corpo não queria compreender o que o meu pensamento dizia, até porque chegados àquela paragem, as palavras estavam perdidas. Não havia tempo, quando houvera tanto. Não havia oportunidades, quando desperdiçáramos todas as que tivemos. Não havia lugares para "olás" e só para "adeus".

E não conseguia. Sabia tudo isso. No decurso da viagem que nos piores momentos parecera não ter fim percebera que aquela era a única solução. Mesmo que me deixasse sem fôlego, trémula e inconsciente do resto. Porque eu gostar da viagem, mesmo nas alturas mais atribuladas, e até talvez por essas.

Se algo nos parece tão errado, é possível que seja a atitude correta?

Quando sentimos que o nosso corpo paralisa, quando o coração se aperta, quando as forças nos abandonam, quando as lágrimas nos turvam a paisagem é, apesar disso tudo, o percurso que devemos escolher?

Aquela pargem parecia-me desoladora. Uns quantos assageiros que se apressavam a entrar e outros que vagueavam por ali por terem há muito perdido a carruagem que lhes era destinada. E era disso que eu mais tinha medo. O que me aterrorizava quando te dizia estas palavras. E se ao escolher sair naquela estação nunca mais chegasse a minha carruagem? E se aquela fosse a certa, a única para mim? Porque, ao olhar para ti, ao hesitar entre a porta e sentar-me de novo a teu lado, a escolher o desconhecido e a escolher-te a ti, com o bom e mau que isso implicava, o meu coração falava mais alto do que a razão. E dizia-me, gritava-me e pulava para que eu me sentasse de novo a teu lado. Que qualquer carruagem seria a minha desde que tu estivesses lá.

Saí.

 

De Inês Bonfim Madeira