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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

O que foi?

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O que foi?
Era a pergunta que mais te fazia.
Olhavas para mim e queria saber o que vias que te parecia sempre intrigar.
Paravas no meio da rua, provocando a irritação a outros transeuntes, para te agachares e reparares num pormenor da calçada, num cão fugido, num cêntimo que me estendias por trazer sorte.
O que foi?
Gostava de compreender a razão que te levava a passares longos períodos de tempo em silêncio, uma ruga entre os olhos, perdido num mundo onde não te conseguia alcançar.
Queria que partilhasses comigo essas ideias privadas que te acorriam nos momentos mais insólitos e que muitas vezes me irritavam, não tanto por te desligares de mim, como por não me dizeres de que se tratava.
O que foi?
Ainda tenho a esperança que um dia confies em mim para me abrires a porta desse mundo secreto que agora é um fosso que nos separa. Tenho-te tão perto mas sempre afastado e isso começa a ser insuportável. Tocas-me mas não me vês. Olhas-me mas não sei quem encaras. Respiras mas é como se já não estivesses aqui.
O que foi?
Talvez se me tivesses levado contigo ainda estaríamos juntos nessas paragens de tempo de que só tu eras dono.


Inês Bonfim Madeira

Guarda o meu amor

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Nunca me deste o teu coração e eu queria tanto dar-te o meu. Não aceitaste e, se na altura fiquei magoada com o que tomei por uma atitude de distanciamento e frieza, hoje percebo que quiseste que mantivesse sempre a minha força. Nunca me colocaste numa posição de vulnerabilidade. Dizias que não existia nada mais belo do que uma mulher com confiança e que não suportavas que eu me pudesse ver desamparada e dependente apenas de ti.

Como discutimos.

Eu só queria que me amasses incondicionalmente como eu te amava. Não compreendia que mesmo nos grandes amores temos de manter algo nosso, a nossa essência, algo que possamos continuar a dar ao outro, que nos torna únicos e o espelho do amor que sentimos.

Se eu tivesse ficado com tudo o que é teu e tu com tudo o que era meu, no fim, o que nos restaria? Nada que pudéssemos oferecer, tonando a vida do outro mais rica e completa. O que há para amar numa pessoa que perdeu tudo o que é seu? E o que temos nós de mais precioso do que o nosso coração, que é a nossa maneira de viver, sentir e reagir? Se o perdermos, perdemos o nosso verdadeiro eu e já não sabemos quem somos. E como podemos esperar que alguém possa amar uma pessoa que não sabe reconhecer-se e valorizar-se?

Ensinaste-me muito sobre força e fizeste-me ver não só a nossa relação, mas a minha vida de uma nova perspetiva. Mais dura, mais humana, mas infinitamente mais verdadeira. 

Por isso, sim. Guardo sempre o teu amor e tu guardas o meu. E eu guardo o meu coração e tu o teu. Não nos amaremos menos por isso, antes mais. Porque quando precisar do teu apoio tu serás forte para me levantares e quando tu precisares que eu seja corajosa, eu serei capaz.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

Um dia comum é sempre especial contigo

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Não fazíamos grandes celebrações e alaridos por datas que deveríamos celebrar.

Havia aqueles dias em que parecia que era obrigatório festejarmos, trocarmos prendas e provarmos o nosso amor um pelo outro. Como se não o fazendo estivéssemos a incumprir alguma espécie de regra que enfranquecia os nossos sentimentos.

Os outros achavam que fazíamos mal. Que as datas especiais eram feitas para serem assinaladas de modo único. Era um dia em que tínhamos de nos esmerar e dar tudo por tudo para que fosse inesquecível.

Mas nós não.

Apesar do espanto e desagrado que causávamos com a nossa atitude não sentíamos essa urgência de transformar um aniversário, um feriado, umas férias em algo espantoso e capaz de causar inveja. Até o podíamos ter feito. Os nossos amigos aconselhavam-no, insistiam, até.

Claro que eles tinham essa necessidade porque no resto dos dias, o dia seguinte até, já tinham o direito de serem banais. Ao ponto de as memórias daquele sentimento avassalador que levara a um grande gesto não fossem mais do que isso. Memórias.

Nós fazíamos precisamente o oposto. Todos os dias tentávamos demonstrar o que sentíamos. Não se iludem. Não falo de gestos de fazer parar uma rua, nem sequer uma sala, ou de joias e viagens. O que era tudo isso, no fim de contas? Não. Refiro-me a pequenos gestos que ninguém poderia identificar, de palavras que não tinham nada de relevante a ouvidos alheios mas que nos deixavam com um sorriso pateta o resto do dia.

O dar as mãos num passeio. Preparar-te o pequeno-almoço num dia de trabalho. Sentarmo-nos no sofá à noite a falarmos sobre o nosso dia. Prenderes-me uma madeixa de cabelo atrás da orelha. Dares-me um beijo de boa noite. Dar-te um beijo de bom dia. Limpares-me as lágrimas quando as coisas não corriam bem. Abraçar-te quando as forças te fugiam. Confessar-te os meus medos. Aceitares os meus defeitos. Amares-me. Amar-te. Apenas isso. Nada mais. Amarmo-nos todos e a cada dia. Nos dias comuns que se tornam especiais.

Sim, hoje é dia de São Valentim. Mas não há muito a fazer ou dizer.

Amo-te. Amas-me. Isso é especial.

 

Inês Bonfim Madeira

 

Não prometas o que não podes

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Lembro-me do dia em que me disseste estas palavras.

Tínhamos almoçado juntos numa quarta-feira que não tinha nada de diferente da terça que passara. 

Fomos ao restaurante da esquina, literalmente ao virar da rua, o do costume. Aquele que servia pratos do dia caseiros e reconfortantes que te faziam lembrar a comida da tua avó.

Estávamos a acabar o café, eu o leite de creme, tu o pudim de ovos, quando percebi que olhavas para mim. Imóvel e com um sorriso de lado.

Passei o guardanapo na boca e uma mão pelo cabelo.

Riste-te. Achavas sempre engraçada a minha insegurança. 

Eu estava bem, asseguraste-me. E, então, sem me deixares preparar, disseste-o. A palavra. A que mudou tudo. que nos levou a um patamar sem nos darmos conta que percorrêramos o trajeto. A que adorava ouvir e que me fazia arrepiar. A que deixava um sorriso pateta no meu rosto e me levava a acenar a desconhecidos surpreendidos.

Claro que eu não podia limitar-me a retribuir-ta e pedi-te que não me magoasses. Porque quantas pessoas são magoadas depois de pronunciadas estas palavras? Eu queria que contasse, que fizesse uma diferença real para nós, que não fosse qualquer coisa que dizíamos apenas para ocupar o lugar de um desculpa, adeus, amo-te.

Tu negaste prometê-lo.

Deveria ter sido motivo suficiente para eu fugir dali, de ti?

Para qualquer outra pessoa este teria sido uma campainha de alarme. Pelo menos um sinal de que as coisas poderiam não ser o que eu esperava, queria, precisava.

Mas isso seria para todas as outras pessoas. Uma pessoa mais sensata. Uma sobre a qual tu não terias influência nenhuma. Uma que fosse imune aos teus encantos. Uma que não aprendera a encantar-se com os teus defeitos. Uma que, naquela resposta, tivesse visto uma admissão de culpa futura e uma honestidade terrível.

Uma que não estivesse irremediavelmente apaixonada por ti. Uma que não fosse eu. Porque mais ninguém compreendia o que se passava entre nós.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

A um fôlego da realidade

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Inspira, paz.

Expira, realidade.

Debaixo de água encontrava aquilo que me escapava à superfície: tranquilidade.

As formas distorcidas.

Os sons calados.

A luminosidade verde azulada.

A escuridão tranquilizadora.

Sim, ali podia ser quem eu quisesse. Outra pessoa. A que me esforçava por ser e a que falhava em me tornar.

A suavidade de movimentos.

O bailado permanente.

A cabeça tão leve, liberta do peso dos pensamentos que flutuavam para longe.

A realidade não existia. Só aquele mundo onde eu não podia existir.

Aquele silêncio que não era capaz de reproduzir.

Aquela paz que era impossível alcançar com a pele seca e os pulmões cheios.

Anestesiada naquela vertigem conseguia finalmente sentir. Ainda que não mais do que durante o esforço de um fôlego. Mas aquela  inspiração era tudo o que tinha para continuar a respirar.

 

De Inês Bonfim Madeira