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Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

Inês Bonfim Madeira

Apaixonada por livros, música e frases que mudam vidas. © Inês Bonfim Madeira Textos e Imagens

A vista da janela

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Debrucei-me sobre o parapeito da janela.

A praça estava cheia. Turistas, pessoas da terra, idosos que tentavam acompanhar crianças. Terminavam o almoço e passeavam pela vila.

Ouvi passos atrás de mim. Abraçaste-me e encostei-me a ti. O meu lugar seguro. Perfeito.

Ficámos a olhar sem ver realmente um miúdo que corria com um cão e meia dúzia de estudantes que se assemelhavam a um bando de aves agoirentas com os seus mantos negros num dia de verão.

Era um dos nossos passatempos preferidos. Espreitar pela janelinha as pessoas que por ali caminhavam. Não era a maior da casa, mas o seu posicionamento tornava-a ideal para nos entretermos com a vida do lado de fora.

Inventávamos histórias, planeávamos as suas vidas, riamo-nos com as hipóteses cada vez mais rebuscadas que conjeturávamos.

Perguntava-me se quem nos via também imaginava um enredo para nós.

O que diriam do jovem casal que perdia a conta das horas empoleirado no parapeito da janela?

Será que quem se sentava na esplanada ao fim da tarde reparava em nós? Naquelas duas figurinhas recortadas contra a luz incandescente do entardecer? Ou nem notariam a pequena abertura num edifício tão grande?

Às vezes íamos para a praça e não resistia a olhar na direção do nosso esconderijo. Agradava-me ter a outra perspetiva. Como se trocasse, mais do que de lugar, de vida.

Apanhavas-me a semicerrar os olhos e eu abanava a cabeça. Não podia evitar.

Mas quando voltávamos a subir os dois lances de escadas e abríamos o vidro da janelinha que nunca cobria com as portadas, depressa esquecia as fantasias. A melhor fantasia era estar ali. Contigo. E, nem por todas as vidas que pudesse sonhar, alguma vez trocaria aquela que tinha.

 

De Inês Bonfim Madeira

Sobras para o pequeno-almoço

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Quando acordei no dia seguinte ele ainda dormia.


Em bicos dos pés tomei um banho, limpei todas aquelas malfadadas pinturas e escovei o cabelo molhado com dificuldade.


Com os restos da noite anterior eliminados, senti-me melhor e, apesar de me apetecer voltar para o calor da cama onde ele ainda ressonava, fiz a minha melhor tentativa de um pequeno-almoço comestível com os restos duvidosos que havia no frigorífico.


Estava a acabar de pôr os pratos na mesa quando ele chegou à cozinha. Comemos depressa, lamento dizer, mas tinha de ir trabalhar e não havia grande espaço para o romantismo. A não ser que contem o facto de ele ter sempre um braço esticado para eu lhe segurar uma mão enquanto comia com a outra.

Ele pôs a loiça na máquina enquanto eu me vestia e verificava a pasta. Hoje não jantaríamos juntos. Eu saía mais tarde do trabalho e ele tinha reuniões a que não poderia faltar.


Lamentei que não vivêssemos juntos e continuássemos nesta roda viva de encontros apressados que sabiam sempre a pouco. Ele não me pressionava, mas eu ainda não me sentia preparada para o “grande passo”. Lá haveria de chegar, ainda que não para já. Por agora lamentaria as noites em que não nos víamos ao mesmo tempo que gozava dessa liberdade.


Calcei os sapatos e já ia a correr para a porta quando ele me abraçou por trás e apoiou o queixo no ombro. Não disse nada. Sempre à espera que fosse eu a dizer o que ele já dissera e que ambos sabíamos que ele desejava ouvir da minha parte.


Fiquei feliz por ele não me ver a expressão. Abri a boca mas nada saiu. Era como o frigorífico dele. Por muito que se alimentasse a esperasse que um dia se abrisse e contivesse a refeição de que necessitávamos, só encontrava lá restos sem sabor.

Suspirei, um suspiro que ele replicou. De desalento, de irritação, de desilusão. Não sei. Mas como cobarde que sou, nem olhei para trás quando fechei a porta.

Corri até fazer a curva lá em baixo e quando cheguei à praça já me convencera que tudo estava como devia estar.

 

De Inês Bonfim Madeira

À noite, no fim do nevoeiro

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Ainda não eram sete da noite e a escuridão já era cerrada.

Caminhava guiada pela iluminação fraca que tentava combater o nevoeiro que começava a cair em lençois cada vez mais pesados.

Estava atrasada, mas não acelerei o passo, na certeza de que quem me esperava não partiria sem mim. Sabia que podia confiar que pediria outra bebida, que começaria a reler o menu até me fazer as melhores sugestões quando eu chegasse.

Puxei o capuz para cima para proteger o penteado que me levara tanto tempo e muita frustração a completar.

Podia imaginar o que a humidade estaria a fazer ao meu trabalho. Sentia a pele peganhenta e praguejei quando o salto dos sapatos falhou uma das tábuas de madeira.

Amaldiçoei-me por não ter vindo de transportes. Mas a verdade é que estava tão nervosa que achara que um passeio ao ar frio me acalmaria. Que idiotice. Claro que o carro também não fora uma opção. Não queria que no final da noite se tornasse um aspeto logístico que me obrigaria a regressar sozinha.

Por fim, sem sentir as pernas cobertas por uns collants cuja função não ia muito para além da decoração, abri a porta do restaurante e avistei-o.

Estava de costas e não me viu quando me esgueirei para a casa de banho tentando, em vão, compor uma maquilhagem esbatida e um cabelo que parecia escorrer da cabeça.

Desisti e, despindo o casaco, regressei à sala.

Ele virou-se quando estava a poucos passos da mesa. Como se, alertado pela minha chegada, fosse capaz de sentir a minha presença.

Sorriu-me, levantou-se e fez aquela coisa desconcertante de me beijar sem deixar de sorrir e sussurrar que já estava com medo que eu não viesse.

Não reparou no meu penteado arruinado, no meu esforço com paletas, apenas me pegou nas mãos para as aquecer e disse que estava gelada. Gelada, mas linda.

Não acreditava, tivera a prova no espelho da casa de banho, mas quando alguém nos olha daquela maneira, tudo o que sai da sua boca é verdade. Todas as mentiras são factos incontestáveis.

Aqueci rapidamente, fosse pelo calor da sala, fosse pela sua proximidade.

Depois do jantar regressámos a pé, imagine-se!, mas desta vez, encolhida no seu abraço, não senti o nevoeiro que nos fazia estreitar nos braços um do outro.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

 

Um banco na praia

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Os sábados de manhã eram especiais.

Nenhum de nós ia trabalhar e, ao contrário das manhãs de domingo que convidavam à preguiça ou aos inevitáveis preparativos de almoços de família a que não podíamos escapar, eram as horas em que andávamos sem destino.

Fosse verão ou inverno, pegávamos nos chapéus de sol ou nos gorros e luvas e caminhávamos até nos esquecermos de onde partíramos. Olhávamos para trás e o percurso não nos dizia nada. 

Adorávamos perder-nos juntos, porque assim sabíamos sempre onde estávamos.

Com a tua mão na minha, ora falávamos sobre todas aquelas coisas importantes e insignificantes, ora nos apaziguávamos no silêncio em que não era preciso dizer nada.

Durante a semana escolhias sempre um sítio diferente e no sábado lá nos preparávamos, saindo ao amanhecer.

Víamos o nascer do sol nos dias límpidos de verão e ficávamos enregelados na escuridão com uma garrafa térmica de café nas mãos que pouco conseguia contra o frio de janeiro.

Os meus passeios preferidos eram na praia.

A paisagem repetia-se em tons de ouro e safiras. Nos dias de nevoeiro as nossas roupas pesavam com a humidade e nada víamos para além de uma massa quase sólida de cinza.

No final do pontão havia um banco de pedra e era aí que nos sentávamos quando o próximo passo nos faria mergulhar nas águas agitadas contra as rochas.

Encostávamo-nos e enchíamos os pulmões com a maresia, o sal e aquele ar que nos abria o apetite e saciava em simultâneo.

Mesmo nos dias mais quentes o banco estava húmido, ainda revelando a morrinha noturna que escurecia a palete dos desenhos dos pés dos que passeavam pelo areal.

Aquele pedaço de pedra branca tornou-se o nosso refúgio. 

Coincidência, ou não, estava sempre desocupado, como se os outros soubessem que nos pertencia. Que ali era o nosso lugar. Como se o banco estivesse desejoso de nos receber e descobrir o que fizéramos desde a última vez que ali nos sentáramos.

Quando ali estávamos nada nos tocava. No nosso pedacinho à beira-mar, o mundo resumia-se a uma elevação de pedra, e nunca sentíamos falta de nada.

Um dia passei por lá. Tu estavas longe e eu, com as saudades a apertarem depois de um telefonema que era sempre demasiado curto, fui até à praia e percorri todo o pontão até ao banquinho.

Queres saber o mais estranho?

Achei-o desconfortável. Estava gelado, fiquei com as calças molhadas e a sua posição elevada fazia com que sentisse a brisa marítima com uma intensidade desagradável. O sol encadeava-me e do mar só via uma mancha de luz.

Desisti após algum tempo. Não me senti serenada. A paz que alcançava nas nossas caminhadas, no meio da minha irritação, era impossível de imaginar.

A desilusão perseguiu-me até casa e não regressei ao banco até tu voltares e fazermos a nossa caminhada. Eu nem queria lá voltar, mas tu convenceste-me. O dia frio não convidava a que se saísse da cama mas tu não aceitaste um não.

No final, sentaste-me a teu lado e apoiei o queixo no teu ombro. O ar gelado não me tirava a respiração, protegida no teu abraço, e as pernas depressa aqueceram ao sol baixo de inverno. Apertaste-me as mãos e esfregaste-as nas tuas enluvadas. Sorriste-me, recortada contra a luz e arrancaste-me um suspiro daqueles que vêm mesmo do fundo da alma.

Quase podia ouvir o banco troçar de mim.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

 

 

Amas-me de maneira pirosa

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Envergonhavas-me.

Corava e cobria o rosto.

Escondia-me para não te escutar.

Dizias as coisas mais embaraçosas, terríveis e cheias de lugares comuns e clichés. 

Dizias aquelas coisas que nas comédias de domingo à tarde parecem maravilhosas e quando ditas na vida real parecem destoar.

Mas quem fala assim?

Quem tem coragem para se exprimir daquele modo?

Tu querias lá saber. 

Mandavas tudo às urtigas e embaraçavas-me.

Fazias-me corar até ficar com o rosto vermelho e cheia de calor. Quase desconfortável.

E era aí que eu tinha a certeza do teu amor. 

Quando eras mais piroso, quando e ficava sem saber o que dizer, quando me ria por nervosismo e para ocupar o lugar das palvras que eram incapazes de sair.

E adorava.

Amavas-me da maneira mais pirosa que se possa imaginar.

Tão verdadeira que com cada palavra que, mesmo assim, não deixava de me afoguear as faces, me apaixonava um bocadinho mais por ti.

 

De Inês Bonfim Madeira

 

Espera no jardim

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Há um tapete de folhas no jardim, lá fora.

As árvores estão nuas, os ramos delgados parecem frágeis sob a mais fraca das brisas.

Os jardins perderam há muito a beleza das últimas estações.

Está tudo gelado, sem cor, castanho, lamacento.

Está tudo em suspenso, à espera.

As árvores estremecem sem a sua proteção dourada e sépia que agora cobre o chão onde se acumulam ervas daninhas e pedaços de plantas secas.

Estão à espera de um raio de sol, do primeiro piar, da primeira pétala colorida que anime aquele quadro desolador.

Estão à espera e ainda falta tanto.

E eu espero no meio do jardim.

Sento-me no tapete de folhas que já nem são estaladiças, debaixo de uma árvore despida, sob um céu sem sol.

Esperamos juntos.

Pela primavera e por ti.

 

De Inês Bonfim Madeira